{"id":1687,"date":"2024-03-23T13:35:41","date_gmt":"2024-03-23T16:35:41","guid":{"rendered":"https:\/\/futeboltotal.tv\/?p=1687"},"modified":"2024-04-16T17:14:05","modified_gmt":"2024-04-16T20:14:05","slug":"claudio-coutinho-a-arte-de-comandar","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/futeboltotal.tv\/index.php\/2024\/03\/23\/claudio-coutinho-a-arte-de-comandar\/","title":{"rendered":"Claudio Coutinho &#8211; A arte de comandar"},"content":{"rendered":"<p>O est\u00e1dio do Ros\u00e1rio Central, o Gigante de Arroyito, \u00e9 um verdadeiro al\u00e7ap\u00e3o; lembra muito La Bombonera, o lend\u00e1rio est\u00e1dio do Boca Juniors onde a dist\u00e2ncia entre o alambrado, o gramado e as linhas do campo s\u00e3o quase inexistentes.<\/p>\n<p>Naquela noite, a torcida colocava press\u00e3o no jogador, xingando constantemente e lan\u00e7ando objetos diversos sobre o campo. A impress\u00e3o que se tinha era que a torcida estava pronta para invadir a qualquer momento. Basicamente, jogar num lugar desses \u00e9 como jogar dentro de um inferninho. O ambiente era t\u00e3o hostil que o Gigante de Arroyito, naquela noite, fazia a Bombonera parecer uma Disneyl\u00e2ndia.<\/p>\n<p>A press\u00e3o em volta desse jogo era monumental. O seguro, consistente e inteligente zagueiro central da Sele\u00e7\u00e3o Brasileira Amaral me disse por telefone: \u201cFomos dormir \u00e0s cinco da manh\u00e3. Eram fogos que n\u00e3o acabavam mais. A pol\u00edcia fechou as ruas em volta do hotel somente por uma quadra, ao inv\u00e9s de uma \u00e1rea maior. Eram fogos de artif\u00edcios a noite inteira. E eles ainda miravam no hotel e nas janelas dos quartos onde est\u00e1vamos\u201d.<\/p>\n<p>Assim sendo, n\u00e3o \u00e9 um jogador qualquer que tem a disposi\u00e7\u00e3o e o car\u00e1ter necess\u00e1rios para enfrentar uma parada dessas. Ao mesmo tempo, para aturar um desafio desses requer-se um tipo de jogador muito especial e com uma personalidade distinta. Portanto, caracter\u00edsticas como coragem e, ao mesmo tempo, controle emocional s\u00e3o primordiais. Naquela ocasi\u00e3o n\u00e3o existia espa\u00e7o para pipoqueiros ou bailarinas.<\/p>\n<p>Seria um desafio muito grande encontrar um jogo dentro do cen\u00e1rio futebol\u00edstico hoje em dia com tamanha vitalidade, vigor f\u00edsico e marca\u00e7\u00e3o acirrada quanto naquela partida da Copa do Mundo de 1978 entre o Brasil e a Argentina, um jogo que para a hist\u00f3ria ficou conhecido como a famosa \u201cBatalha de Ros\u00e1rio\u201d.<\/p>\n<p>Vale a pena lembrar tamb\u00e9m que os ju\u00edzes de futebol de outrora tinham mais toler\u00e2ncia a infra\u00e7\u00f5es e permitiam lances muito mais violentos e duvidosos do que hoje em dia.<\/p>\n<p>Naquela ocasi\u00e3o, as divididas em campo muitas vezes passavam bem perto do limite do que era permitido pelas regras do jogo.<\/p>\n<p>Em suma, n\u00e3o \u00e9 qualquer um que consegue preparar um grupo de jogadores para tamanha fa\u00e7anha na casa do anfitri\u00e3o. E foi essa disposi\u00e7\u00e3o incessante em torno do vigor f\u00edsico, da marca\u00e7\u00e3o implac\u00e1vel e da cobertura dos espa\u00e7os demonstrada pelos jogadores de Coutinho que me impressionou, al\u00e9m do fato de estarem encarando o advers\u00e1rio de igual para igual.<\/p>\n<p>Naquele jogo, o esp\u00edrito aguerrido, a motiva\u00e7\u00e3o e disposi\u00e7\u00e3o extrema de nossos jogadores, e a organiza\u00e7\u00e3o t\u00e1tica em todos os elementos especialmente no sistema defensivo sem a posse de bola foram um fator hist\u00f3rico e in\u00e9dito dentro do nosso futebol at\u00e9 aquele momento.<\/p>\n<p>A coragem demonstrada pelos jogadores brasileiros naquele jogo \u00e9 simplesmente inesquec\u00edvel e um marco para a Hist\u00f3ria do futebol brasileiro. De imediato, cheguei \u00e0 conclus\u00e3o de que aquele comportamento de nossos jogadores era especial e uma pessoa com muita capacidade de lideran\u00e7a e de gerenciamento humano estava por tr\u00e1s de tamanha fa\u00e7anha.<\/p>\n<p>Afinal, quem ali dentro daquela Comiss\u00e3o T\u00e9cnica estava apto para preparar o Brasil t\u00e3o bem no aspecto psicol\u00f3gico do jogo? Foi a pergunta que fiz de imediato ap\u00f3s ter visto aquela partida.<\/p>\n<p>Seja a prefer\u00eancia do telespectador por um jogo mais ofensivo ou defensivo, fica claro que o empenho demonstrado pelos jogadores brasileiros tenha sido ineg\u00e1vel. Portanto, a pergunta acima se torna ainda mais relevante.<\/p>\n<p>De imediato, tive em vista saber se ali existia um psic\u00f3logo na Comiss\u00e3o T\u00e9cnica brasileira. Afinal, o Brasil havia feito o uso de um psic\u00f3logo em 1958 e 1962, mas nada comprovava a utiliza\u00e7\u00e3o de um profissional da \u00e1rea em 1978, durante a Copa do Mundo. Havia rumores de que sim. Perguntei a diversos jogadores que jogaram naquela Sele\u00e7\u00e3o e nenhum deles confirmou a presen\u00e7a de um profissional dessa \u00e1rea na Comiss\u00e3o T\u00e9cnica.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, fiz uma pesquisa dentro da literatura acad\u00eamica e encontrei um estudo delineando a passagem de profissionais da Psicologia Desportiva na Sele\u00e7\u00e3o Brasileira. Nesse artigo, havia um relato sobre a passagem de um psic\u00f3logo com a Sele\u00e7\u00e3o de 1958 e 1962, mas nada com a Sele\u00e7\u00e3o de Claudio Coutinho.<\/p>\n<p>Querendo realmente passar a limpo de uma vez por todas a quest\u00e3o, resolvi contactar as pesquisadoras que escreveram o artigo para saber se os psic\u00f3logos de 1958 e 1962 haviam tamb\u00e9m passado pela Sele\u00e7\u00e3o de 1978. Uma das pesquisadoras me respondeu dizendo que, definitivamente, esse tal profissional nunca havia trabalhado naquela Sele\u00e7\u00e3o. Apesar dessa confirma\u00e7\u00e3o, a pergunta ainda me inquietava, permanecia em aberto at\u00e9 ent\u00e3o. Quem de fato poderia ter tamanha capacidade para liderar e preparar esses guerreiros de forma t\u00e3o viril para uma partida de futebol? Eu tinha certeza de que ali tinha a m\u00e3o de algu\u00e9m muito preparado e com muita experi\u00eancia para mobilizar um grupo de atletas em torno de objetivos comuns.<\/p>\n<p>Naquela ocasi\u00e3o, eu ainda estava num momento inicial sobre minha curiosidade a respeito de Claudio Coutinho e sua passagem mete\u00f3rica dentro do futebol brasileiro. Mas, \u00e0 medida que avancei na minha pesquisa sobre esse grande t\u00e9cnico, comecei a observar que ele possu\u00eda um dom pouco averiguado e discutido.<\/p>\n<p>Seguramente, a sua capacidade de liderar, motivar, gerenciar, empatizar e de se comunicar com um grupo de jogadores de forma t\u00e3o eficiente foi uma de suas virtudes menos estudada ao longo dos anos. Vale a pena lembrar que, em geral, Coutinho e seu legado foram pouco analisados e estudados.<\/p>\n<p>Uma das maiores virtudes de Claudio Coutinho era sua flexibilidade de racioc\u00ednio. Ele demonstrava essa habilidade no trato com cada jogador de forma espec\u00edfica para a necessidade de cada um. Tamb\u00e9m mudava a escala\u00e7\u00e3o da equipe conforme as particularidades dos oponentes. Paralelamente, tinha habilidade para escolher os melhores para as necessidades de um determinado momento.<\/p>\n<p>Consequentemente, mostrou sua perspic\u00e1cia na partida disputada em Ros\u00e1rio quando colocou o temido Chic\u00e3o, ao lado de Batista, com o intuito de fechar completamente o meio, formando uma barreira em frente \u00e0 defesa brasileira. Por\u00e9m, curiosamente, n\u00e3o foi s\u00f3 o requisito t\u00e1tico que o fez escalar Chic\u00e3o. A ocasi\u00e3o exigia algu\u00e9m com muita personalidade e \u201chuevos\u201d de sobra. Com efeito, o volante de conten\u00e7\u00e3o e da v\u00e1rzea era um gigante psicologicamente, incapaz de amarelar em qualquer momento e muito menos numa ocasi\u00e3o t\u00e3o solene e cr\u00edtica como foi aquela partida. Igualmente, Chic\u00e3o era frio, calculista e consistente na maneira de jogar.<\/p>\n<p>Antes da Copa, Chic\u00e3o havia dito \u00e0 Revista Manchete Esportiva:<\/p>\n<p>\u2014 Eu me controlo. Agora mesmo, no Chile, jogando a Libertadores, peguei dois times cheios de jogadores argentinos. O Palestino e o Uni\u00f3n. Levei cotovelada na boca, at\u00e9 sangrou; fiquei quieto. Depois, levei outra, reclamei com o \u00e1rbitro Ram\u00f3n Barreto, que disse que meu advers\u00e1rio fizera \u201csem querer\u201d. Aguentei tudo. Apenas, no final, chamei o lateral deles e disse: \u201cGringo, fique sossegado que, no Brasil, eu te pego\u201d.<\/p>\n<p>Ele era um l\u00edder dentro do campo e, naquela noite em Ros\u00e1rio, foi o mandachuva do duelo. Em completa comunh\u00e3o com Batista, preconizou uma incessante vigil\u00e2ncia dentro da defesa do time brasileiro.\u202fPor serem jogadores de defesa, infelizmente, nunca tiveram o devido reconhecimento no nosso futebol.<\/p>\n<p>Quando perguntei ao jogador Amaral se Chic\u00e3o era comunicativo durante o jogo, no meio de uma partida, ele me disse:<\/p>\n<p>\u2014 O Chic\u00e3o dava a vida para ganhar o jogo e para te ver bem. Ele era um cara humilde, mas que n\u00e3o pipocava de jeito nenhum. Se ele via algum jogador do outro time fazendo jogo desleal contra algu\u00e9m do nosso time, ele partia pra dentro, chegava em cima e falava: aqui n\u00e3o, aqui o pau vai comer e ca\u00e7ava o cara na hora certa. Ele nos dava uma seguran\u00e7a total.<\/p>\n<p>Naquela noite, o time comandado pelo Capit\u00e3o Claudio Coutinho jamais se intimidou e chegou a bater at\u00e9 mais do que os argentinos. N\u00e3o \u00e9 qualquer t\u00e9cnico que consegue passar tamanha coragem para um grupo de jogadores, ainda mais nas condi\u00e7\u00f5es em que aquele jogo foi disputado. Em certos momentos, pode-se observar que os argentinos estavam mesmo intimidados. Chic\u00e3o, por exemplo, olhava os caras de cima para baixo, como se estivesse jogando em casa. Era um jogador que se entregava de corpo e alma em prol de objetivos comuns e que eram para o bem da equipe como um todo. Naquela noite, de forma cir\u00fargica, Coutinho o havia escalado.<\/p>\n<p>Em uma sociedade que frequentemente glorifica o indiv\u00edduo, gerando por vezes obsess\u00f5es patol\u00f3gicas em torno de v\u00e1rias celebridades e artistas, em que as pessoas somente visam os benef\u00edcios pr\u00f3prios, n\u00e3o existe tarefa mais \u00e1rdua do que convencer jogadores milion\u00e1rios, com egos super inflados, a subjugar seus ganhos individuais em prol do interesse da equipe. Se acrescentarmos a essa problem\u00e1tica realidade o extremo individualismo e todas as banalidades e vulgaridades que cercam esses indiv\u00edduos, o gerenciamento humano eficaz dessas equipes de futebol pode se tornar uma tarefa gigantesca. A necessidade de administrar as vontades m\u00faltiplas e dispersas dessas personalidades, que na maioria das vezes n\u00e3o s\u00e3o coesas em torno de objetivos comuns, se torna um desafio monumental para os t\u00e9cnicos. Curiosamente, essa habilidade de lideran\u00e7a que Coutinho possu\u00eda seria ainda mais de grande valia nos dias atuais.<\/p>\n<p>Sob o mesmo ponto de vista, essa necessidade n\u00e3o s\u00f3 aflige o futebol. O exemplo hoje em dia do Dallas Cowboys, uma equipe renomada dentro do futebol americano, se torna bem ilustrativo para o problema a que chamamos aten\u00e7\u00e3o. Essa equipe tem na verdade jogadores considerados de ponta em quase todos os setores. No entanto, s\u00e3o verdadeiras estrelas sem qualquer tipo de conex\u00e3o entre si. Nas \u00faltimas tr\u00eas temporadas, apesar de ter um time cheio de estrelas, n\u00e3o conseguiram ganhar sequer um jogo durante os playoffs. Em suma, n\u00e3o possuem lideran\u00e7a nem dentro, nem fora das quatros linhas.<\/p>\n<p>Sob o mesmo ponto de vista, o renomado t\u00e9cnico de futebol americano Rex Ryan enfatizou o problema numa entrevista: \u201cA prioridade tem que ser a equipe, n\u00e3o o indiv\u00edduo, deixe de ir atr\u00e1s das estrelas e procure jogadores que joguem em prol do conjunto, da equipe. O Cowboys tinha 14 jogadores de extremo talento, que s\u00e3o de n\u00edvel de Sele\u00e7\u00e3o (pro-bowlers). A estrela no capacete do Dallas Cowboys \u00e9 perfeita para descrever o problema. S\u00e3o estrelas solit\u00e1rias e eles precisam de algu\u00e9m que v\u00e1 unir essas estrelas em torno de um objetivo comum e que possa formar, nutrir uma gal\u00e1xia\u201d.<\/p>\n<p>De forma semelhante, a Sele\u00e7\u00e3o Brasileira nas \u00faltimas tr\u00eas Copas \u00e9 um exemplo n\u00edtido de falta de lideran\u00e7a e coes\u00e3o interna ao redor de objetivos de maior valia. Precisamos de um l\u00edder que passe para essa garotada objetivos em prol do conjunto, de for\u00e7a maior, objetivos que transcendam o ego, que sejam duradouros e de valia imensur\u00e1vel.<\/p>\n<p>Curiosamente, outro dia um garoto de oito anos me perguntou por que jogador fulano de tal tem tantos riscos nas sobrancelhas? O foco, dentro e fora do n\u00facleo de uma equipe, n\u00e3o pode girar em torno do superficial. Sob o mesmo ponto de vista, as maquiagens, o botox, os preenchimentos e as sobrancelhas feitas aos cuidados de profissionais e demais banalidades descritas acima necessitam receber menos aten\u00e7\u00e3o por muitos jogadores. Se banalidades e vedetismos tomam a maior parte do tempo dos \u201cnarcisos\u201d de uma equipe, ofuscando o foco na prepara\u00e7\u00e3o para uma partida, elas devem ser extirpadas.<\/p>\n<p>Precisamos de jogadores que sejam craques, mas tenham tamb\u00e9m uma mentalidade muito mais aguerrida, compar\u00e1vel aos jogadores de h\u00f3quei sobre o gelo. Nesse esporte, n\u00e3o tem frescura. L\u00e1, h\u00e1 craques sem dentes, com narizes tortos e sangue escorrendo no rosto. S\u00e3o indiv\u00edduos com menor grau de egocentrismo, est\u00e3o preparados para dar tudo em prol da equipe. Em contrapartida, hoje em dia, chega a ser bizarro esse comportamento de verdadeiras divas por uma parcela dos jogadores de futebol.<\/p>\n<p>Vale dizer que n\u00e3o \u00e9 imposs\u00edvel o indiv\u00edduo se apresentar como uma \u201c\u00e1rvore de Natal\u201d, cheio de enfeites e, ao mesmo tempo, \u201ccomer a grama\u201d em prol da equipe. Existem muitos exemplos de atletas que foram bem-sucedidos em seus esportes. E eles existem tamb\u00e9m no futebol.<\/p>\n<p>No basquete, Dennis Rodman, por exemplo, que foi considerado um dos maiores reboteiros da hist\u00f3ria do basquete, jogava muitas vezes com o cabelo pintado de rosa. Contudo, na hora do \u201cvamos ver\u201d, ele n\u00e3o pipocava. O estrelismo n\u00e3o afetava o jogo dele. Ele tinha gente de grande porte a seu lado, com personalidade, e que o enquadravam quando ele passava dos limites no seu comportamento egoc\u00eantrico. Naquela equipe do Chicago Bulls, ningu\u00e9m falava mais alto do que Michael Jordan. Paralelamente, o conhecimento do t\u00e9cnico Phil Jackson na \u00e1rea da Psicologia e Gerenciamento Humano era simplesmente \u00e9pico e bem conhecido. Certa ocasi\u00e3o, quando era t\u00e9cnico do Lakers, Jackson chegou a utilizar os servi\u00e7os de um Terapeuta, com especializa\u00e7\u00e3o em comportamento de pessoas narcisistas. Ele precisava de uma assessoria para lidar melhor com o relacionamento entre Kobe Bryant e Shaquille O\u2019Neal.<\/p>\n<p>Quando a maioria dentro de um n\u00facleo se apresenta de forma displicente e despreparada, e n\u00e3o joga nada, com certeza \u00e9 preciso averiguar o que se passa. De fato, o 7 a 1 contra a Alemanha, a maior vergonha da hist\u00f3ria do futebol brasileiro, ainda est\u00e1 muito mal explicada e as causas dessa derrota ainda precisam ser investigadas. Um livro poderia ser escrito analisando todas as causas de tamanho vexame. O fato de n\u00e3o termos nem chegado \u00e0s semifinais nas \u00faltimas duas Copas com tanto talento \u00e9 outra aberra\u00e7\u00e3o e as causas desse fracasso tamb\u00e9m precisam ser avaliadas. Da mesma forma, o fato de n\u00e3o nos classificarmos para as pr\u00f3ximas Olimp\u00edadas demonstra nosso grau de mediocridade em termos de lideran\u00e7a.<\/p>\n<p>Todavia, se ap\u00f3s convocado, o futebolista j\u00e1 entra ali com uma mentalidade de desleixo, fazendo pouco caso da competi\u00e7\u00e3o e pensando nas f\u00e9rias, a\u00ed n\u00e3o h\u00e1 talento que resolva a situa\u00e7\u00e3o. Ainda mais: muitos navegam no esp\u00edrito de total comodidade e complac\u00eancia, pois j\u00e1 fizeram fortuna e obtiveram os pr\u00eamios que consideram suficientes.<\/p>\n<p>O renomado pugilista norte-americano Marvin Hagler disse em certa ocasi\u00e3o: \u201c\u00c9 muito dif\u00edcil levantar de manh\u00e3 cedo para correr quando dormimos em pijamas de seda\u201d.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m, o que mais tem hoje em dia, por diversas raz\u00f5es e press\u00f5es, s\u00e3o jogadores sendo convocados sem considerar o estado de esp\u00edrito ou a vontade de estarem presentes naquela ocasi\u00e3o. Na minha opini\u00e3o, esse foi um problema nas \u00faltimas tr\u00eas Copas.<\/p>\n<p>E justamente aqui entra novamente a sabedoria do Capit\u00e3o Claudio Coutinho. Antes da escolha final dos convocados para a Copa do Mundo, Coutinho fez um estudo minucioso sobre dezenas de caracter\u00edsticas de jogadores que ele estava observando. O grande jornalista Ney Bianchi, numa mat\u00e9ria antes da Copa na Revista Manchete Esportiva, deixou claro: \u201cE ele dispunha de informa\u00e7\u00f5es confidenciais que inclu\u00edam desde os modismos t\u00e9cnicos (maneira de jogar, comportamento num jogo cordial e num jogo catimbado, na chuva e no sol, no calor e no frio, dentro e fora do pa\u00eds) at\u00e9 os h\u00e1bitos sociais (quem bebia, o que bebia, quando bebia, quem fumava, quando fumava, quem dormia cedo, quem dormia tarde, quem tinha problemas familiares, que tipo de problemas e da\u00ed por diante). Ele era um homem muito bem-informado. E sabia exatamente o que queria, quando chegou o grupo que estava em viagem. Nesse sentido, nunca houve outro treinador t\u00e3o bem-informado. E que buscasse, conscientemente, todo o knowhow poss\u00edvel sobre os seus atletas\u201d.<\/p>\n<p>Parece impens\u00e1vel que hoje em dia o t\u00e9cnico da Sele\u00e7\u00e3o venha a descartar um jogador por fragilidade mental, especialmente quando tal jogador \u00e9 representado por um megaempres\u00e1rio ou se por tr\u00e1s dele imperam outros interesses financeiros. Na \u00faltima Copa, fora das quatro linhas, se viu at\u00e9 elementos devorando carne folheada a ouro em uma churrascaria local do Qatar, numa atitude completamente est\u00fapida e sem sentido. Ao mesmo tempo, esse ato tem um significado muito maior, simbolizando a total falta de lideran\u00e7a e de ensinamentos de quem comanda. Tal atitude \u00e9 uma demonstra\u00e7\u00e3o da falta de sabedoria, de discernimento e de bom senso desses elementos. Afinal, trata-se de uma indica\u00e7\u00e3o das prioridades de quem foi \u00e0quele restaurante. Bem como uma indica\u00e7\u00e3o de quem est\u00e1 no comando e deixando de passar ensinamentos a esses jogadores. Afinal, ser\u00e1 que se estivesse na moda ou demonstrasse maior status comer uma fatia de carne coberta de elementos parasit\u00e1rios, esses sujeitos a comeriam? Essa pergunta me parece pertinente diante de tamanha imbecilidade.<\/p>\n<p>Muitos parecem mesmo crian\u00e7as mimadas e mal-instru\u00eddas que precisam desesperadamente de serem resgatadas e reeducadas. Na verdade, precisam de um professor com sabedoria, algu\u00e9m que possam admirar e lhes dar o exemplo, mostrando-lhes como priorizar o que \u00e9 digno. Assim sendo, n\u00e3o precisam de puxa-sacos sem lideran\u00e7a nenhuma e que deixam rolar de tudo, dando total liberdade aos jogadores, permitindo-lhes que mandem no recinto. Infelizmente, esses jogadores s\u00e3o liderados por indiv\u00edduos com pouco conhecimento em outras disciplinas que possam servir de aux\u00edlio no ensinamento, no cultivo de um esp\u00edrito de maior coes\u00e3o e do estabelecimento de prioridades mais dignas. Eles precisam de um sujeito para mostrar o caminho e ensinar boas maneiras. \u00a0Afinal, temos jogadores seriamente envolvidos em casos graves com a Justi\u00e7a.<\/p>\n<p>Curiosamente, muitos t\u00e9cnicos est\u00e3o muitas vezes mais preocupados em manter o controle de seus cargos e seus bens do que com qualquer outra coisa, preferindo por isso apaziguar e agradar aos rebeldes em vez de dirigirem a equipe como um todo. Ou seja, n\u00e3o est\u00e3o ali para se sacrificarem e se colocarem em uma posi\u00e7\u00e3o mais arriscada de confronto, onde estariam dispostos a botar em seus lugares aqueles jogadores que criam problemas internos. Muitas vezes, tal confronto \u00e9 necess\u00e1rio e poderia acarretar dividendos para quem visa consolidar uma coes\u00e3o interna dentro da equipe em prol do grupo. Com t\u00e9cnicos dessa estirpe bancando ser \u201cprofessores\u201d, seria prefer\u00edvel que os alunos n\u00e3o fossem \u00e0 escola.<\/p>\n<p>Em contrapartida, a coes\u00e3o da sele\u00e7\u00e3o argentina na \u00faltima Copa foi consequ\u00eancia de uma forte lideran\u00e7a que soube administrar personalidades diversas em prol da importante trajet\u00f3ria rumo \u00e0 consuma\u00e7\u00e3o e \u00e0 glorifica\u00e7\u00e3o. Grande parte do m\u00e9rito dessa vit\u00f3ria \u00e9 n\u00e3o apenas dos jogadores, mas tamb\u00e9m do pr\u00f3prio Lionel Scaloni, o t\u00e9cnico da equipe argentina que ajudou a incutir um n\u00edvel elevado de uni\u00e3o, coletividade e de amizade entre seus jogadores. Isso se deve a toda a sua capacidade de gerenciamento humano e de como tirar partido do que h\u00e1 de melhor em seus atletas. E era exatamente essa habilidade que Claudio Coutinho possu\u00eda. O pr\u00f3prio Coutinho era um homem digno, altru\u00edsta, demonstrando modera\u00e7\u00e3o e mod\u00e9stia em sua conduta: todo reconhecimento que vinha em sua pr\u00f3pria dire\u00e7\u00e3o, ele direcionava aos seus jogadores. Acima de tudo, ele era emp\u00e1tico e carregava tal qualidade nas mangas. Ele tinha uma sensibilidade \u00fanica para sentir o estado de esp\u00edrito de seus jogadores. De fato, ele se preocupava com todos.<\/p>\n<p>Numa das v\u00e1rias conversas que tive com Julio Cesar \u201cUri Geller\u201d, um dos maiores dribladores que o futebol brasileiro j\u00e1 viu, ele me disse: \u201cSe preocupar com os 11 dentro do campo que est\u00e3o sorrindo e dar aten\u00e7\u00e3o a eles \u00e9 f\u00e1cil. O capit\u00e3o se preocupava com quem estava no banco, com quem tava de fora. Quem n\u00e3o jogava na quarta, treinava na quinta. E era nesse dia que ele botava todo o conhecimento dele de dentro da psicologia em pr\u00e1tica. Ele era \u00fanico, e se preocupava com todos\u201d.<\/p>\n<p>De fato, Coutinho dava a mesma aten\u00e7\u00e3o para reservas e titulares. Todos se sentiam acolhidos e como parte de um grupo.<\/p>\n<p>Numa conversa in\u00e9dita com Savva Biller, um estudioso da posi\u00e7\u00e3o e um dos goleiros que fazia parte do Los Angeles Aztecs, no ano que Coutinho trabalhou com aquela equipe norte-americana, ele me disse: \u201cEu era um jovem goleiro que era reserva na \u00e9poca que ele chegou no Aztecs. Ele falava comigo como se eu fosse a pessoa mais importante da equipe. Quando ele falava comigo ele me fazia sentir como se eu fosse o titular da posi\u00e7\u00e3o. Eu sempre o via, diariamente, conversando individualmente com v\u00e1rios jogadores\u201d.<\/p>\n<p>Muitos jogadores de futebol s\u00e3o extremamente intuitivos e sagazes, farejando de longe a \u00edndole do t\u00e9cnico. Os treinadores carism\u00e1ticos, com capacidade de lideran\u00e7a e de car\u00e1ter forte, s\u00e3o os que t\u00eam a maior probabilidade de serem admirados e de terem o exemplo seguido pelo seu time. Diante de uma figura com tamanha lideran\u00e7a e senso de justi\u00e7a, os atletas est\u00e3o dispostos a dar a dar tudo pelo seu t\u00e9cnico.<\/p>\n<p>Quando um jogador percebe que o t\u00e9cnico se importa com ele como pessoa, mais at\u00e9 do que ele tem a oferecer como atleta, em tais circunst\u00e2ncias, esse indiv\u00edduo passa a ser disposto a dar a cara \u00e0s balas pelo seu l\u00edder.<\/p>\n<p>Julio Cesar me disse de forma clara:<\/p>\n<p>\u2014 Coutinho n\u00e3o me convocou para alguns amistosos. Ele sabia que eu estava abalado. Do nada, num certo dia, ele chegou \u00e0 minha favela, na Cidade Alta, foi l\u00e1 no meu barraco, sentou-se \u00e0 minha mesa, para tomar comigo e minha m\u00e3e uma \u201csopa de entulho\u201d. Voc\u00ea t\u00e1 entendendo? Ele foi l\u00e1 me pedir desculpas por n\u00e3o ter me convocado, tomou a sopa de entulho e foi embora. Como \u00e9 que voc\u00ea n\u00e3o vai correr em campo para um homem desses?\u201d.<\/p>\n<p>O zagueiro central Amaral, por telefone, foi enf\u00e1tico:<\/p>\n<p>\u201c\u2014 A personalidade dele era marcante. Ele respondia ao que tinha que responder. Respeitava todo mundo. Gostava que voc\u00ea o chamasse de Coutinho. N\u00e3o tinha essa de ter de ficar chamando de \u201cprofessor\u201d. Era um cara aberto. O que ele mais gostava era quando a gente levava ideias para ele. Gostava da participa\u00e7\u00e3o de todos e de trocar ideias\u201d.<\/p>\n<p>Relatos como esses deixam claro o lado emp\u00e1tico desse homem. Coutinho era muito humano e se preocupava, acima de tudo, com o bem-estar dos jogadores. O sentimento e a vontade de ajudar o pr\u00f3ximo, e de se colocar \u00e0 disposi\u00e7\u00e3o de todos \u00e9 uma atitude cada vez mais escassa nos dias de hoje. Afinal, n\u00e3o \u00e9 qualquer t\u00e9cnico que se disp\u00f5e a conhecer o lado mais \u00edntimo e as afli\u00e7\u00f5es mais profundas dos seus jogadores. Isso requer tempo e uma sincera curiosidade, por parte do l\u00edder, para de fato conhecer os seus comandados na intimidade.<\/p>\n<p>A habilidade did\u00e1tica de Cl\u00e1udio Coutinho para explicar conceitos t\u00e1ticos tamb\u00e9m era extraordin\u00e1ria. Numa conversa longa por telefone, Klaas de Boer, que foi seu assistente t\u00e9cnico durante sua passagem no Los Angeles Aztecs, na temporada de 1981, me disse:<\/p>\n<p>\u2014 Os m\u00e9todos de comunica\u00e7\u00e3o dele eram extraordin\u00e1rios. Ele se comunicava muito bem com os jogadores e conseguia rapidamente passar, de forma eficiente, o posicionamento t\u00e1tico. Ele passava uma positividade que, de fato, era contagiante. Era um homem extremamente culto e agrad\u00e1vel; um homem da Renascen\u00e7a\u201d.<\/p>\n<p>Embora essa habilidade de ensinar ou aconselhar, nada tenha a ver com o conhecimento t\u00e1tico e t\u00e9cnico do jogo, muitas vezes ela se torna ainda mais importante, principalmente nos dias de hoje. E \u00e9 justamente nesse aspecto que a estrela e a lideran\u00e7a do cult\u00edssimo, s\u00e1bio e saudoso Claudio Coutinho est\u00e1 atualmente em falta. Nesse sentido, ele estava muito \u00e0 frente dos outros profissionais da \u00e1rea. O Capit\u00e3o deixara a sua marca, passando conceitos de grande valia para \u00a0os jogadores da sua equipe, tais como um esp\u00edrito forte e abnegado, e uma s\u00f3lida coes\u00e3o interna.<\/p>\n<p>A nadadora ol\u00edmpica e ex-presidente do Flamengo, Patr\u00edcia Amorim, afirmou sobre Coutinho, numa entrevista:<\/p>\n<p>\u2014 Nossas grandes equipes sempre foram capitaneadas por\u00a0 grandes l\u00edderes e ele oi uma dessas figuras.<\/p>\n<p>Coutinho administrava uma equipe de futebol como ningu\u00e9m. A equipe do Flamengo, tricampe\u00e3 carioca em dois na os (1978\u201379), era uma verdadeira Sele\u00e7\u00e3o, um tima\u00e7o com jogadores reservas que poderiam atuar em qualquer time de ponta, at\u00e9 mesmo na Sele\u00e7\u00e3o Brasileira. Naquela \u00e9poca, mesmo alguns reservas poderiam fazer parte de outras sele\u00e7\u00f5es, at\u00e9 mesmo como titulares.<\/p>\n<p>Na d\u00e9cada de 1980, s\u00f3 os jogadores que atuavam no Rio de Janeiro, seriam suficientes bastava para mandar tr\u00eas ou quatro times que poderiam jogar uma Copa do Mundo, de igual pra igual, fazendo par com as melhores equipes.<\/p>\n<p>Uri Geller me disse:<\/p>\n<p>\u2014Na mesma posi\u00e7\u00e3o, Coutinho contava com Andrade e Vitor. \u00c0s vezes, jogava o Andrade; e o Vitor era convocado para jogar na Sele\u00e7\u00e3o Brasileira, no final de semana. Ele contava com um jogador reserva que era convocado para na Sele\u00e7\u00e3o do Brasil\u201d.<\/p>\n<p>Sua capacidade e experi\u00eancia de gest\u00e3o humana, para deixar todos felizes e satisfeitos, ficava ainda mais n\u00edtida em situa\u00e7\u00f5es em que era preciso gerenciar craques por todos os lados. N\u00e3o \u00e9 qualquer um que tem a capacidade de apaziguar diversos egos e vaidades, em torno de objetivos comuns.<\/p>\n<p>Se fosse f\u00e1cil, o supertime do Paris Saint-Germain, dos \u00faltimos anos, j\u00e1 teria conquistado a Champions League, pois ali n\u00e3o faltam craques. N\u00e3o adianta botar 11 estrelas dentro de campo e achar que eles v\u00e3o resolver, sem lideran\u00e7a ou sem um educador. Tem que haver sinergia e comunh\u00e3o entre os que jogam. O mesmo se observa com a \u201cgera\u00e7\u00e3o de ouro\u201d da B\u00e9lgica, que disputou a mais recente Copa do Mundo. Aquela Sele\u00e7\u00e3o, apesar de sempre bem-cotada, jamais ganhou um t\u00edtulo. Portanto, n\u00e3o basta ter craques, sem um mentor com capacidade de motivar e cultivar esse v\u00ednculo entre os que jogam.<\/p>\n<p>Os jogadores atuais, mais do que nunca, precisam de um t\u00e9cnico com sabedoria, algu\u00e9m que possam admirar e lhes dar o exemplo, mostrando como priorizar o que \u00e9 digno.<\/p>\n<p>Coutinho era um educador. Numa entrevista, o jogador Ad\u00edlio, um dos maiores craques que j\u00e1 pisou nos gramados brasileiros, foi enf\u00e1tico na sua opini\u00e3o sobre ele:<\/p>\n<p>\u201cCoutinho era um educador muito forte em no\u00e7\u00e3o de vida e comportamento. A minha felicidade foi t\u00ea-lo encontrado, porque eu era orf\u00e3o de pai e m\u00e3e, e fui muito aconselhado por ele, que me mostrou o caminho. E eu s\u00f3 segui\u201d.<\/p>\n<p>Especialmente tendo em vista todas as tenta\u00e7\u00f5es que giram em torno da fama e da fortuna, a lideran\u00e7a de uma figura \u00edcone, como a do personagem Yoda, do filme \u201cGuerra nas estrelas\u201d, se torna ainda mais necess\u00e1ria para orientar uma equipe a diferenciar o certo do errado.<\/p>\n<p>Embora essa habilidade de ensinar ou aconselhar nada tenha a ver com o conhecimento t\u00e1tico e t\u00e9cnico do jogo, muitas vezes se torna ainda mais importante. \u00a0Tais situa\u00e7\u00f5es requerem um l\u00edder que gerencie as diferentes personalidades.<\/p>\n<p>Phil Jackson, o renomado e vitorioso t\u00e9cnico do Los Angeles Lakers e do Chicago Bulls tinha essa habilidade. Ao mesmo tempo, conseguia administrar Kobe Bryant e Shaquille O\u2019Neal e deix\u00e1-los satisfeitos. E no Chicago Bulls, ele administrava jogadores com personalidades dif\u00edceis, como Dennis Rodman, Scottie Pippen e Michael Jordan. Botar esse pessoal remando no mesmo rumo n\u00e3o \u00e9 f\u00e1cil.<\/p>\n<p>Mais recentemente, a Sele\u00e7\u00e3o Argentina, atual campe\u00e3 mundial, se mostrou discreta, mas motivada por um esp\u00edrito de forte uni\u00e3o, mantendo o foco na importante trajet\u00f3ria rumo \u00e0 conquista da Copa.<\/p>\n<p>Da mesma forma, Coutinho fez com o time do Flamengo nos \u00faltimos anos da d\u00e9cada de 1970 e no primeiro ano da d\u00e9cada de 1980.<\/p>\n<p>Neste mundo moralmente relativista, o jogador n\u00e3o precisa apenas de um treinador, mas de um educador, de um professor e de um l\u00edder. Os treinadores mais bem-sucedidos s\u00e3o aqueles que n\u00e3o s\u00f3 det\u00eam conhecimentos t\u00e9cnicos e t\u00e1ticos de jogo, mas demonstram tamb\u00e9m um perfeito entendimento do esp\u00edrito dos jogadores. Assim, s\u00e3o capazes de tutelar e convencer esses jogadores, muitas vezes problem\u00e1ticos e de dif\u00edcil conv\u00edvio, a lutarem por objetivos comuns e coletivos, acima das vaidades egoc\u00eantricas e necessidades pessoais.<\/p>\n<p>T\u00e9cnicos com a habilidade de transmitir aos seus atletas a ideia de que vale mais a pena lutar por gl\u00f3rias e objetivos mais duradouros, que transcendem os interesses egoc\u00eantricos, s\u00e3o muitas vezes os que tendem a ter maior \u00eaxito, quando comparados aos que focam apenas em aspectos t\u00e9cnicos e t\u00e1ticos do jogo.<\/p>\n<p>Seria imposs\u00edvel entender a Filosofia e a Pedagogia de Claudio Coutinho sem nos aprofundarmos em sua forma\u00e7\u00e3o militar. Grande parte das pessoas tendem a associar uma forma\u00e7\u00e3o militar com costumes ou maneiras autorit\u00e1rias e exageradamente disciplinares. No entanto, o tema \u00e9 muito mais complexo do que essa conota\u00e7\u00e3o rasa.<\/p>\n<p>Cl\u00e1udio Coutinho estava longe de ser qualquer coisa parecida com um autorit\u00e1rio.\u00a0 Ao contr\u00e1rio, tinha muito car\u00e1ter e uma personalidade firme; mas, ao mesmo tempo, era extremamente emp\u00e1tico, ameno e aberto ao di\u00e1logo. Era firme, mas ponderado; era um pensador.<\/p>\n<p>Antes da Copa, ele declarou \u00e0 imprensa:<\/p>\n<p>\u2014 H\u00e1 v\u00e1rios tipos de treinadores: o engra\u00e7ado, o dur\u00e3o, o boa-pra\u00e7a, o paternalista&#8230; h\u00e1 de tudo. O importante \u00e9 saber usar a pr\u00f3pria autoridade. E quanto menos us\u00e1-la, melhor. Autoridade se perde rapidamente\u201d.<\/p>\n<p>Em geral, os valores (ethos) civis de uma sociedade se contrastam de uma forma significante quando comparados com a cultura de guerreiros (samurais, apaches, legi\u00f5es romanas, vikings, espartanos etc.).<\/p>\n<p>A Cultura do Ex\u00e9rcito est\u00e1 muito mais pr\u00f3xima dos valores dessas culturas de guerreiros do que de uma sociedade civil. Os valores desses grupos divergem. No c\u00f3digo dos guerreiros, por exemplo, uma agress\u00e3o, mesmo aleat\u00f3ria, pode at\u00e9 mesmo ser valorizada e celebrada. No entanto, a mesma agress\u00e3o, dentro de uma sociedade civil, levaria o agressor \u00e0 cadeia.<\/p>\n<p>Em contrapartida, em geral, c\u00f3digos vinculados \u00e0 sociedade civil s\u00e3o caracterizados pelo individualismo, a busca incessante do caminho pr\u00f3prio e a liberdade para o cidad\u00e3o fazer o que bem entender, desde que n\u00e3o atinja a liberdade do pr\u00f3ximo.<\/p>\n<p>Afincados a esses valores, decorre na sociedade civil a busca da celebridade, da riqueza desgovernada e de um reconhecimento individual que, hoje em dia, beira o patol\u00f3gico. O ego\u00edsmo e o materialismo exacerbado caracterizam essa sociedade. Em contrapartida, as filosofias vinculadas aos c\u00f3digos dos guerreiros d\u00e3o maior import\u00e2ncia e valorizam: coes\u00e3o, obedi\u00eancia, honra e uma mentalidade muito mais altru\u00edsta. Ao mesmo tempo, valorizam o sacrif\u00edcio em prol do grupo. \u00c9 uma perspectiva filos\u00f3fica imbu\u00edda pelo coletivismo, pela interdepend\u00eancia de todos dentro de um grupo.<\/p>\n<p>Sob o mesmo ponto de vista, hoje em dia, os mais bem-sucedidos t\u00e9cnicos de futebol s\u00e3o aqueles que, muitas vezes, conseguem resgatar o m\u00e1ximo poss\u00edvel dessa din\u00e2mica de grupo do passado, onde os interesses comuns, em prol da equipe, s\u00e3o os que imperam. \u00c9 como o esp\u00edrito do esporte amador, onde a gl\u00f3ria \u00e9 tudo.<\/p>\n<p>\u00c9 uma dose maior desses valores espartanos, vinculados a um \u201cc\u00f3digo de guerreiros\u201d, que precisamos em nossas Sele\u00e7\u00f5es. Pode ser dif\u00edcil fomentar essa din\u00e2mica, pois a nossa sociedade est\u00e1 em n\u00edveis quase patol\u00f3gicos de ego\u00edsmo e egocentrismo. No entanto, n\u00e3o \u00e9 imposs\u00edvel conseguir essa comunh\u00e3o entre os que fazem parte de uma equipe. Afinal, existem exemplos de v\u00e1rios t\u00e9cnicos que exercem comando em equipes de diferentes modalidades desportivas que conseguiram passar alguns desses conceitos para os seus grupos.<\/p>\n<p>Vale a pena mencionar que a Sele\u00e7\u00e3o Brasileira que ganhou a Copa de 1970 era um exemplo de engajamento intragrupal, em todos os aspectos. Existia harmonia social, t\u00e1tica e t\u00e9cnica entre os jogadores. Poderiam at\u00e9 existir algumas diferen\u00e7as entre certos jogadores. No entanto, a grande maioria se dava muito bem e existia um afeto entre aqueles campe\u00f5es.<\/p>\n<p>Essa mesma conex\u00e3o tamb\u00e9m se viu na Sele\u00e7\u00e3o de 1994. Por isso, por mais talento individual que se tenha num elenco, n\u00e3o existir\u00e1 sucesso sem o m\u00ednimo de solidariedade e esp\u00edrito coletivo entre os que comp\u00f5em.<\/p>\n<p>Muitos leigos, ultrapassados e retr\u00f3grados, acham que o esp\u00edrito coletivo afeta negativamente ou ofusca o desempenho da estrela individual. Essa ideia \u00e9 absurda. A Sele\u00e7\u00e3o de 1970 era inundada de estrelas (era uma gal\u00e1xia!), mas todos em comunh\u00e3o dentro do campo.<\/p>\n<p>Julio Cesar confirmou que muitos jogadores da equipe do Flamengo que dominou a d\u00e9cada de 1980 j\u00e1 vinham jogando juntos e se conheciam desde a \u00e9poca do mirim. Assim sendo, muitos n\u00e3o se d\u00e3o conta da necessidade dessa conex\u00e3o e sinergia, descartando ingenuamente a sua import\u00e2ncia.<\/p>\n<p>Na maioria das vezes, essa din\u00e2mica, fortemente presente em equipes bem-sucedidas, n\u00e3o \u00e9 quantificada e passa despercebida.<\/p>\n<p>Amaral nos enfatizou:<\/p>\n<p>\u2014 Aquela Sele\u00e7\u00e3o de 78 foi um grupo unido e saud\u00e1vel, tanto que mantemos o contato, uns com os outros, at\u00e9 hoje. Para a imprensa, havia um revanchismo entre Rio de Janeiro e S\u00e3o Paulo. Para a gente, dentro do grupo, isso n\u00e3o existia\u201d.<\/p>\n<p>O zagueiro central ainda foi mais longe nas suas cr\u00edticas:<\/p>\n<p>\u2014 A imprensa da \u00e9poca botava muita press\u00e3o em cima do grupo e do Coutinho para ele mudar os convocados. Tamb\u00e9m faziam intrigas. Em contrapartida, antes da excurs\u00e3o que fizemos \u00e0 Europa, antes da Copa, Coutinho, para nos dar tranquilidade, disse para todos ficarem tranquilos e jogarem seu futebol porque, dali em diante, ele n\u00e3o iria cortar mais ningu\u00e9m, a n\u00e3o ser por incapacidade f\u00edsica ou les\u00e3o. Essa atitude foi fundamental para nos dar a tranquilidade para jogarmos\u201d.<\/p>\n<p>Ainda mais: Coutinho tamb\u00e9m carregava o orgulho de ser Brasileiro e n\u00e3o tinha qualquer complexo de inferioridade, que perdura em muitos outros at\u00e9 hoje, mais de 40 anos depois da sua morte tr\u00e1gica. Ele falava de igual para igual com os jornalistas de qualquer lado, dava entrevista em diversos idiomas.<\/p>\n<p>Ele, de fato, empoderava seus jogadores, com a sua ret\u00f3rica com os jornalistas e a imprensa em geral.<\/p>\n<p>Na excurs\u00e3o que o Brasil fez \u00e0 Europa antes da Copa do Mundo, depois do disputado e violento jogo contra a Inglaterra, em Wembley, uma das mat\u00e9rias da Manchete Esportiva afirmava que, antes, os europeus nos chamavam de frouxos. Coutinho comentou:<\/p>\n<p>\u2014 Diziam, para quem quisesse ouvir, que para espantar um jogador brasileiro basta dar-lhe duro. Ele n\u00e3o gosta de jogar pesado. Nem do corpo a corpo. E, muito menos, de apanhar. Agora, eles nos chamam de animais.<\/p>\n<p>E Coutinho conclui:<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o mandei bater. Nem na Alemanha, nem na Inglaterra, dois jogos violentos. Mas a ordem era para ningu\u00e9m fugir do pau. E, isso, esse time faz\u201d.<\/p>\n<p>E na mesma mat\u00e9ria em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 Copa do Mundo, Coutinho disse:<\/p>\n<p>\u2014 Vamos maneirar um pouco. Apenas de que eles j\u00e1 sabem que, se derem, levam. E em dobro. Mas n\u00e3o somos desleais e vamos mostrar que podemos ganhar a Copa sem viol\u00eancia.<\/p>\n<p>Naquele jogo, em certas ocasi\u00f5es, os ingleses bateram at\u00e9 mais que os brasileiros; no entanto, s\u00f3 eles podiam bater e jogar virilmente. A imprensa de l\u00e1 s\u00f3 via a maldade de c\u00e1. E a cobertura da imprensa inglesa, depois daquela excurs\u00e3o do Brasil, foi tendenciosa e vergonhosa, sem qualquer autocr\u00edtica.<\/p>\n<p>Na conhecida revista inglesa \u201cWorld Soccer\u201d, o jornalista <strong>Eric Batty<\/strong> afirmou:<\/p>\n<p>\u2014 Zico \u00e9 demasiadamente superestimado. Os centroavantes Reinaldo e Nunes n\u00e3o conseguem jogar contra defesas europeias. Os brasileiros n\u00e3o sabem jogar duro \u2014 apenas sujo. E os bons \u00e1rbitros reduzir\u00e3o seu time a oito ou nove homens, se eles continuarem jogando na Argentina como fizeram em Wembley&#8221;.<\/p>\n<p>A verdade, \u00e9 que, em toda a sua hist\u00f3ria futebol\u00edstica, a Inglaterra nunca teve um Reinaldo e, muito menos, um Zico. E Nunes foi aquele que \u201carrebentou\u201d com a defesa do Liverpool, em 1981, na final de T\u00f3quio.<\/p>\n<p>Esse preconceito e mentalidade ainda colonialistas, perduram at\u00e9 os dias de hoje. O recalque e a inveja do talento do futebol brasileiro, ainda persiste.<\/p>\n<p>H\u00e1 alguns anos, Sir Alex Ferguson, o lend\u00e1rio treinador do Manchester United por mais de 25 anos, deu uma declara\u00e7\u00e3o contra o jogador David Luiz que, na \u00e9poca, jogava pelo Chelsea e se envolveu em uma disputa com um dos jogadores do Manchester, que recebeu o cart\u00e3o vermelho.<\/p>\n<p>\u2014 O \u00e1rbitro se deixou levar pelo fato de ele [David Luiz] estar rolando no ch\u00e3o e duvido que tomaria outra decis\u00e3o se n\u00e3o tivesse visto aquilo. \u00c9 algo que vemos nestes jogadores europeus, estrangeiros e sul-americanos\u201d \u2014 frisou o ent\u00e3o treinador do United.<\/p>\n<p>De acordo com o que Ferguson disse, ser\u00e1 que ele est\u00e1 dando a entender que os \u00fanicos que n\u00e3o fingem les\u00f5es s\u00e3o os jogadores brit\u00e2nicos?&#8230; Bem, talvez tais atletas simplesmente n\u00e3o tenham tantas oportunidades para dramatizar suas les\u00f5es no centro do maior palco do futebol mundial \u2014 a Premier League \u2014, uma vez que eles s\u00e3o cada vez mais uma raridade entre os titulares das maiores equipes do mundo. E a cada ano que passa, eles parecem ter menos espa\u00e7o em decorr\u00eancia de serem substitu\u00eddos pelo talento estrangeiro \u2014 precisamente, o mesmo talento cobi\u00e7ado, em muitas ocasi\u00f5es, pelo pr\u00f3prio Ferguson para fazer parte de seu plantel.<\/p>\n<p>Se Fergusson viesse com essa ladainha pra cima do Coutinho iria tomar na hora uma lambada, iria tomar um \u201cippon\u201d.<\/p>\n<p>Em certa ocasi\u00e3o, antes da Copa, quando um jornalista ingl\u00eas lhe perguntou se j\u00e1 considerava o Brasil suficientemente europeizado Coutinho respondeu no mesmo tom ir\u00f4nico da pergunta:<\/p>\n<p>\u2014 \u201cEstamos t\u00e3o abrasileirados, quanto voc\u00eas sempre pretenderam ser.\u201d<\/p>\n<p>Quer dizer, a intelig\u00eancia da resposta de Coutinho \u00e9, simplesmente, espetacular e arrasadora, um tiro certeiro na cara do jornalista bret\u00e3o. Como um l\u00edder desses, arisco no racioc\u00ednio, n\u00e3o conseguiria empoderar seus comandados? Coutinho tocava o cora\u00e7\u00e3o das pessoas.<\/p>\n<p>Agora, fa\u00e7o uma pergunta ao leitor:<\/p>\n<p>\u2014 Algu\u00e9m acha que, se Claudio Coutinho estivesse \u00e0 frente da Sele\u00e7\u00e3o Brasileira no 7 a 1 contra a Alemanha, no Mineir\u00e3o, seus jogadores iriam permitir tamanha vergonha? E ainda na partida da disputa do terceiro lugar, tomaram mais tr\u00eas gols da Holanda?<\/p>\n<p>Era um bando de jogadores sem brios, sem vergonha e sem sangue nas veias. Em dois jogos de uma Copa do Mundo, tomaram dez gols. A acachapante derrota para a Alemanha foi uma falha sist\u00eamica e um epis\u00f3dio sem preced\u00eancia entre sele\u00e7\u00f5es campe\u00e3s do Mundo. E seria ainda pior se os alem\u00e3es n\u00e3o tirassem o p\u00e9 do acelerador. Certamente, se tiv\u00e9ssemos um Chic\u00e3o ou um Brito, em qualquer desses dois jogos, a parada seria outra; como dizem: o buraco seria mais embaixo.<\/p>\n<p>A tremenda disposi\u00e7\u00e3o demonstrada pelo Brasil na \u201cBatalha de Ros\u00e1rio\u201d n\u00e3o foi vista nem de perto, nem de longe nas apresenta\u00e7\u00f5es dessa Sele\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O pugilista norte americano Marvin Hagler permaneceu invicto por mais de dez anos. Ele mencionou que um dos fatores que o motivava durante tanto tempo era um certo temor que ele carregava consigo. Ele disse:<\/p>\n<p>\u2014 H\u00e1 um monstro que sai de dentro de mim quando estou no ringue. Acho que isso me faz lembrar dos tempos em que eu n\u00e3o tinha nada, quando passava fome. O monstro \u00e9 esse, e ele me assusta&#8221;.<\/p>\n<p>Obviamente, esse \u00e9 um sentimento muito poderoso e instintivo que algu\u00e9m pode usar para buscar motiva\u00e7\u00e3o e se reinventar. Hagler tinha medo de voltar \u00e0s origens dif\u00edceis, de passar fome novamente. E, por isso, lutava feito um le\u00e3o, dava tudo no ringue.<\/p>\n<p>Seria muito dif\u00edcil encontrar um cara com tamanha disposi\u00e7\u00e3o nos dias de hoje em nossas Sele\u00e7\u00f5es. Seguramente, nossos jogadores est\u00e3o muito longe desse conceito que Hagler carregava consigo. Com os bolsos cheios e a vida resolvida, alguns se acham acima do bem e do mal.<\/p>\n<p>Como pode um Pa\u00eds, com tanto talento individual, em todos os setores do campo, n\u00e3o chegar nem nas semifinais nas \u00faltimas duas Copas. E seria ainda pior: ainda fazer o papel\u00e3o que fez no 7 a 1, em pleno territ\u00f3rio nacional, na frente de sua popula\u00e7\u00e3o?<\/p>\n<p>O \u201ccapit\u00e3o\u201d da equipe, antes da cobran\u00e7a dos p\u00eanaltis, nas oitavas de final contra o Chile j\u00e1 estava chorando e pediu para ser o \u00faltimo batedor, em caso de necessidade, at\u00e9 mesmo atr\u00e1s do pobre goleiro. Um absurdo exemplo da total falta de lideran\u00e7a.<\/p>\n<p>Com um \u201cl\u00edder\u201d desses, o que poder\u00edamos esperar daqueles que, supostamente, deveriam seguir o \u201cl\u00edder\u201d? E o que isso nos diz a respeito de quem escolheu esse elemento para ser capit\u00e3o?<\/p>\n<p>Fato: onde existe lideran\u00e7a, tal desgoverno nunca ocorreria.<\/p>\n<p>Agora, imaginem: Dunga chorando antes de bater p\u00eanaltis? Do mesmo modo: Rom\u00e1rio, craque e valente dentro do campo, tirando a responsabilidade de si na hora da cobran\u00e7a e passando para os ombros de outro?<\/p>\n<p>Lembro do Rom\u00e1rio pegando a bola na decis\u00e3o por p\u00eanaltis com apreens\u00e3o, mas caminhando com f\u00e9, e como algu\u00e9m que estava pronto para morrer de p\u00e9, se fosse o caso, na final de 1994 contra a It\u00e1lia.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m lembro do Zico, um dos maiores jogadores que o Mundo j\u00e1 viu, com toda a coragem e personalidade poss\u00edvel, pegando a bola para bater na disputa de p\u00eanaltis contra a Fran\u00e7a, mesmo ap\u00f3s ter perdido um p\u00eanalti durante o jogo; ele entrara, momentos antes, frio em um jogo quente mas, na hora do p\u00eanalti, enquanto alguns fingiam que \u201cn\u00e3o era com eles\u201d, Zico n\u00e3o fugiu da raia. Maior bravura do que a demonstrada pelo Galo, um monstro sagrado, seria dif\u00edcil de encontrar.<\/p>\n<p>Jogadores dessas equipes, imbu\u00eddos de uma mentalidade aguerrida, contrastam com os de outras sele\u00e7\u00f5es que voltam para a casa antecipadamente, com suas tropas de maquiadores, cabeleireiros, aplicadores de botox e com \u00e1gua oxigenada para encher at\u00e9 uma piscina. Em suma, precisamos de um t\u00e9cnico que consiga tirar o melhor de nossos jogadores.<\/p>\n<p>Nossa Sele\u00e7\u00e3o precisa da lideran\u00e7a de algu\u00e9m que tenha uma filosofia e um sistema de valores mais espartanos e menos consumistas, menos materialistas e menos ocos. Algu\u00e9m que, por menor que seja, consiga passar alguns desses ensinamentos e que eles sejam carregados para dentro e fora do campo, criando objetivos de irmandade, de esp\u00edrito coletivo, de verdadeiros guerreiros.<\/p>\n<p>Enfim, algu\u00e9m que acenda a chama dentro do cora\u00e7\u00e3o desses gigantes, com talento de sobra, mas administrados \u2014 dentro e fora dos gramados por pessoas muito limitadas.<\/p>\n<p>Vejamos a equipe da Cro\u00e1cia que joga um futebol lindo e tem craques por todos os lados. Durante a Copa do Mundo demonstrou ser verdadeiramente detentora de muita personalidade e uma forte identidade. Sua coes\u00e3o pode ter ra\u00edzes na Hist\u00f3ria de seu pa\u00eds, forjada a partir do conflito que se seguiu \u00e0 desintegra\u00e7\u00e3o geogr\u00e1fica da Iugosl\u00e1via na d\u00e9cada de 1990. O craque, Luka Modri\u0107, um dos jogadores mais talentosos e t\u00e9cnicos do mundo, al\u00e9m de ser um dos mais inteligentes em campo, falou sobre como o assassinato de seu av\u00f4 por um grupo de chetniks moldou seu car\u00e1ter. Outros jogadores enfrentaram, diretamente ou indiretamente, o trauma de tais eventos hist\u00f3ricos.<\/p>\n<p>Sem d\u00favida, seria um desafio encontrar uma experi\u00eancia coletiva que pudesse servir para galvanizar e motivar um grupo de jogadores para realizar feitos extraordin\u00e1rios. \u201cTomates\u201d \u2014 como dizem os portugueses \u2014 \u00e9 o que n\u00e3o falta nessa gente. Gente imbu\u00edda de um esp\u00edrito de valentia, garra, determina\u00e7\u00e3o e coragem a dar de sobra. Considerando que a equipe da \u00faltima Copa \u00e9 composta por jogadores significativamente diferentes daqueles que jogaram na final contra a Fran\u00e7a, durante a Copa do Mundo anterior, na R\u00fassia, o cr\u00e9dito pelo sucesso deve ser dado \u00e0 lideran\u00e7a do t\u00e9cnico principal.<\/p>\n<p>Essa lideran\u00e7a acima descrita e a disposi\u00e7\u00e3o demonstrada pela Sele\u00e7\u00e3o de Cl\u00e1udio Coutinho n\u00e3o existiu para o Brasil nas \u00faltimas tr\u00eas Copas. O conhecimento multifacetado que Coutinho detinha se faz ainda mais necess\u00e1rio.<\/p>\n<p>Al\u00e9m do saber em diversas \u00e1reas, Coutinho tinha um engajamento social e uma filosofia de vida que serviriam como um verdadeiro ant\u00eddoto contra o veneno, a barb\u00e1rie, contra o mangue das banalidades que afoga cada vez mais pobres almas em nossa sociedade e que aflige muitos dos que jogam em nossas Sele\u00e7\u00f5es. Ele estaria dentro do bote entregando salva-vidas.<\/p>\n<p>***<\/p>\n<p>Chega a ser incr\u00edvel o r\u00e1pido desenvolvimento e sucesso do ga\u00facho Claudio P\u00eacego de Moraes Coutinho na carreira de treinador de futebol. Quando ele assumiu a Sele\u00e7\u00e3o, s\u00f3 tinha alguns anos de experi\u00eancia como treinador principal e, em curto tempo, fez o que fez n\u00e3o s\u00f3 com a Sele\u00e7\u00e3o, mas com o Flamengo tamb\u00e9m. Depois dos dois empates durante a Copa contra a Su\u00e9cia e a Espanha, a Sele\u00e7\u00e3o ganhou da Pol\u00f4nia e do Peru, de forma convincente.<\/p>\n<p>Na partida de Ros\u00e1rio contra a Argentina, o Brasil esteve nitidamente melhor em campo e s\u00f3 n\u00e3o ganhou a partida pela proeza t\u00e9cnica mostrada pelo goleiro Ubaldo Fillol, que fez defesas milagrosas.<\/p>\n<p>Regularmente, diferen\u00e7as milim\u00e9tricas ou detalhes inquantific\u00e1veis dentro de um jogo determinam o curso ou resultado de uma partida. Muitas vezes, uma bola na trave ou uma defesa milagrosa no final da partida, s\u00e3o a diferen\u00e7a entre a vit\u00f3ria ou a derrota. A sorte faz parte de qualquer jogo e \u00e9 dif\u00edcil encontrar um campe\u00e3o sem sorte.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m vale a pena dizer que o cerco estava montado para facilitar o caminho do pa\u00eds anfitri\u00e3o. Sabe-se l\u00e1 o que poderia ter acontecido se o Brasil passasse \u00e0 frente do marcador, na partida de Ros\u00e1rio? Talvez fosse mesmo imposs\u00edvel ao Brasil sair com a vit\u00f3ria naquele jogo. Possivelmente, n\u00e3o teria sido permitido, pois algum artif\u00edcio de \u00faltima hora seria administrado.<\/p>\n<p>No entanto, o t\u00e9cnico brasileiro deixou o Brasil invicto na Copa de 1978 e s\u00f3 n\u00e3o foi \u00e0 final em decorr\u00eancia de artif\u00edcios altamente duvidosos que eliminaram o Brasil por saldo de gols. A volta para casa, sem a Copa, serviu de muni\u00e7\u00e3o para os detratores desse grande t\u00e9cnico.<\/p>\n<p>Ainda mais que existe at\u00e9 hoje certo preconceito contra t\u00e9cnicos que nunca jogaram futebol profissionalmente. Seguramente, muitos ex-jogadores veem com maus olhos aqueles que almejam ser t\u00e9cnicos de futebol sem a experi\u00eancia de jogador profissional. Talvez acreditem que essas posi\u00e7\u00f5es de destaque devem ser reservadas somente a ex-jogadores.<\/p>\n<p>Cl\u00e1udio Coutinho, com todo o conhecimento que detinha naquela \u00e9poca, estaria, hoje em dia, \u00e0 frente at\u00e9 mesmo de qualquer t\u00e9cnico brasileiro.\u202fSua trajet\u00f3ria e o que ele representou para o futebol brasileiro ainda precisa ser elucidado com maior profundidade.<\/p>\n<p>Ele era um homem com convic\u00e7\u00e3o blindada, mas flex\u00edvel no racioc\u00ednio. E n\u00e3o somente em rela\u00e7\u00e3o ao gerenciamento humano, mas tamb\u00e9m na utiliza\u00e7\u00e3o do elenco, em sua totalidade, da maneira mais eficiente, pois utilizava escala\u00e7\u00f5es diversas, de acordo com as necessidades dos jogos.<\/p>\n<p>Rodrigo de Paul, jogador argentino, \u00e9 um dos exemplos de determina\u00e7\u00e3o e garra da sele\u00e7\u00e3o albiceleste: um meio-campista duro e r\u00fastico, que chega nas divididas com vigor, incorporando o esp\u00edrito guerreiro que personifica uma Sele\u00e7\u00e3o. Ap\u00f3s a vit\u00f3ria na final, ele escreveu em uma de suas redes sociais:<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o busquem dinheiro; busquem gl\u00f3ria! Sejam campe\u00f5es do mundo e todo o povo se lembrar\u00e1 de voc\u00eas e ir\u00e3o vos agradecer pelo resto da vida\u201d.<\/p>\n<p>De forma parecida, o Capit\u00e3o Claudio Coutinho disse \u00e0 revista Placar, em 1978:<\/p>\n<p>\u2014 A melhor maneira de se motivar um grupo \u00e9 cham\u00e1-lo para a concretiza\u00e7\u00e3o de um grande objetivo. E a Copa \u00e9 esse objetivo. Qualquer obst\u00e1culo \u00e9 superado; o frio, o cansa\u00e7o, tudo \u00e9 vencido. A meta vale qualquer sacrif\u00edcio.<\/p>\n<p>Isso j\u00e1 diz tudo: a conquista de um t\u00edtulo \u00e9 a maior realiza\u00e7\u00e3o pessoal para um jogador de futebol e vale mais do que qualquer bem material. Certamente, vale muito mais do que um peda\u00e7o de carne folheada a ouro, consumida por pobres almas, sem rumo e sem comando, que deveriam ter mais sede de vit\u00f3ria \u2014 a gl\u00f3ria maior do esporte.<\/p>\n<p>Precisamos de bra\u00e7os mais fortes e m\u00e3os mais amigas e unidas. Precisamos de algu\u00e9m que \u2014 como disse Rex Ryan, com muita sabedoria \u2014, \u201cconsiga unir estrelas solit\u00e1rias em uma gal\u00e1xia\u201d.<\/p>\n<p>O \u201ccometa\u201d Claudio Coutinho passou com uma velocidade jamais vista pelos c\u00e9us do Brasil. Enquanto esteve presente, deu tudo pelo Brasil, acreditava na soberania da Na\u00e7\u00e3o, amava a P\u00e1tria, deu a cara \u00e0s balas nas entrevistas, tutelou e botou os prepotentes ingleses em seus devidos lugares, tanto dentro e fora do campo, com fogo e com a cabe\u00e7a em Wembley. Na Argentina, deixou tudo nos campos de batalha, Foi invejado por deter um conhecimento que ningu\u00e9m tinha e, muitas vezes, foi desmerecido e injusti\u00e7ado.<\/p>\n<p>No entanto, para as centenas de pessoas que estiveram sob sua tutela, ele as sensibilizou, deu luz e esperan\u00e7a onde a escurid\u00e3o reinava. E formou uma gal\u00e1xia. Tocava no cora\u00e7\u00e3o e dava aten\u00e7\u00e3o \u00e0s pessoas, independentemente de qualquer bem material que elas pudessem ou n\u00e3o possuir. Ou do que pudesse receber em troca.<\/p>\n<p>Coutinho foi e continua eternamente amado pela Na\u00e7\u00e3o Rubro-Negra que, de suas m\u00e3os, viu nascer uma das equipes mais entrosadas e sensacionais que o Mundo do futebol j\u00e1 viu.<\/p>\n<p>Ex unitate vires! [A for\u00e7a da unidade!] \u2014 Inesquec\u00edvel!<\/p>\n<p>Imaginem se a tr\u00e1gica e precoce morte desse gigante sagrado do futebol brasileiro n\u00e3o tivesse ocorrido. Ele estava em plena ascens\u00e3o e longe do auge, pois era muito jovem quando faleceu. Acredito piamente que, se tivesse mais tempo no comando da Sele\u00e7\u00e3o, teria ganho uma Copa do Mundo.<\/p>\n<p>Em uma das conversas que tive com Julio Cesar \u201cUri Geller\u201d, um driblador nato, disse a ele que considerava Claudio Coutinho quase \u00a0era um psic\u00f3logo.<\/p>\n<p>Num dos artif\u00edcios mais marcantes com o intuito de motivar um grupo de atletas que j\u00e1 escutei, o driblador me disse:<\/p>\n<p>\u2014 Antes da final no Maracan\u00e3, em 1980, contra o Atl\u00e9tico Mineiro, antes da ida ao est\u00e1dio, ainda na concentra\u00e7\u00e3o, o homem botou uma caixa de sapatos na nossa frente e disse: \u201cA minha prele\u00e7\u00e3o pra voc\u00eas, hoje, est\u00e1 dentro dessa caixa, a minha prele\u00e7\u00e3o pra voc\u00eas, hoje, est\u00e1 dentro dessa caixa\u201d.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>\u2014 Quando abrimos a caixa, havia um sapato de salto alto. Quer dizer: o homem era genial, \u00a0ele era um l\u00edder com o cora\u00e7\u00e3o. Estava nos alertando contra o excesso de confian\u00e7a e para entrarmos em campo com os p\u00e9s no ch\u00e3o.<\/p>\n<p>Quando disse de novo que Coutinho era um psic\u00f3logo, na mesma hora e de imediato, ele me disse:<\/p>\n<p>\u2014 Velho, velho&#8230; ele era muito mais do que um psic\u00f3logo. Ele era muito mais do que um psico\u00f3logo. Ele era diferente. O conhecimento dele era absurdo, velho. O homem tinha muito mais conhecimento do que um psic\u00f3logo; ele era um psiquiatra. Velho, \u00a0ele era um psiquiatra.<\/p>\n<p>Capit\u00e3o Claudio Coutinho: ame-o ou deixe-o!<\/p>\n<p><strong><em><font color=\"#ffff00\">Ricardo Guerra \u00e9 Fisiologista do Exerc\u00edcio e tem Mestrado em Fisiologia Esportiva, pela Liverpool John Moores University. Trabalhou com v\u00e1rios clubes de futebol no Oriente M\u00e9dio e Europa, incluindo as sele\u00e7\u00f5es do Egito e do Catar. Em 2015, foi Fisiologista do Exerc\u00edcio do Olympique de Marseille, \u00e9poca em que o time chegou \u00e0 final da Copa da Fran\u00e7a contra o PSG.<\/font><\/em><\/strong><\/p>\n<p><strong><em><font color=\"#ffff00\">Ricardo det\u00e9m a mais importante licen\u00e7a de treinador da FA \u2014 Associa\u00e7\u00e3o de Futebol da Inglaterra e tamb\u00e9m da UEFA \u2014 Uni\u00e3o das Associa\u00e7\u00f5es Europeias de Futebol.<\/font><\/em><\/strong><\/p>\n<p><strong><em><font color=\"#ffff00\">Viajou pelo Mundo, coletando dados e quantificando a capacidade fisiol\u00f3gica de jogadores de v\u00e1rios pa\u00edses. Seus artigos foram publicados em mais de cinco idiomas em v\u00e1rias organiza\u00e7\u00f5es de not\u00edcias. Atualmente, Ricardo est\u00e1 radicado nos Estados Unidos, \u00e9 candidato a PhD em Fisiologia do Exerc\u00edcio, est\u00e1 escrevendo um livro sobre o futebol brasileiro e pode ser contactado pelo e-mail rvcgf@hushmail.com<\/font><\/em><\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O est\u00e1dio do Ros\u00e1rio Central, o Gigante de Arroyito, \u00e9 um verdadeiro al\u00e7ap\u00e3o; lembra muito La Bombonera, o lend\u00e1rio est\u00e1dio do Boca Juniors onde a dist\u00e2ncia entre o alambrado, o gramado e as linhas do campo s\u00e3o quase inexistentes. 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